words

Do desenho à palavra, da palavra ao desenho, como do ovo à galinha e da galinha ao ovo – eis o corpo das palavras para dentro do qual todo o corpo-do-meu-desenho nasce, irremediavelmente.

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O fogo no seu acume

Produz o vento e agita o sangue

Dando dando

as Múltiplas vias

Num jardim _______ numa casa

Vai verbo

Vai

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O fígado faz os planos

A vesícula aquece a coragem

E aí

lembro-me dos sismos

Do tremor

E dos jogos de dominó 

Se há fenómenos Para despertar ?

Acontece O Nada

Uma clareira

Aqui ou nos Açores

Um alarme simulado e no tecto o indício

Pressinto estalar a figa e a fuga

Aqui ou nos Açores

A Terra é dos poetas

_____________Essa gente

_____________minha alegria

de luz plena

e mais vesícula _____________

Na ponta dos dedos 

o diagnóstico:

Vigiam-se os meridianos com a força

timidamente

com força

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A maçã cai fria

Oremos

Irmãos 

E graças

encriptadas na travessa

Aqui o aforismo 

nunca diz a verdade:

– diz sempre meia verdade

Ou uma verdade e meia 

Daí a sua graça 

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O baço 

enfraquecido

Corre para dentro

Solta-se a raiva, centrífuga

E salva-se a introversão 

_________ Fala-me do ajudante!

 – ele é o que falta ao agora.

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trago a terra revolvida

a procurar um corpo 

um ser entrado no sulco da pedra 

um corpete debruçado na sebe

ai espelho, ai presépio, ai chuva

fosse eu uma garra

apenas uma, curva e firme,

daquelas que nos puxam para dentro de um animal

fosse eu um jardim ____________________canibal

E mataria Caim

Desrespeitado o sinal

e a bacia  descoberta dos seus braços 

como a um cato 

suculento

morno e ali

espetado

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Não me vergarei ao peso dos esboços

Carregá-los-ei sim

A saber que são puríssima ilusão

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Quem se perde no meio de um desenho

De Amarguras secas

Escarpas

E Pedras?

– Portanto – disse o velho pintor – Faz tudo do início.

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Memória da falha bacante

Dormente

Dormes como a queixa:

Ventre deposto 

Oblíquo rosto

E sobra-saliva

em todo o pano

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Quando os pintores, não como nós mas eles, nos dizem : 

faz outro – com água – se queres faz outro – parece outra vida –

Sorri – parece que posso até ter muitas – 

As vidas – se calhar – calhando – até posso!

Acredito, de olhos pintados, a encenação do encarnado

 – e mais uma Vida

Lanço a tinta em jacto

Para ver o que aparece

 E se aparecer mais uma?

Outra vida dentro da outra?

Em jacto?

Depois de dormir

Em jacto

Cá está ela

Encarnada

Agora , mãos em concha

Tens de lidar

e não é nada sobre o vinho,

És tu

Depois da caverna

Além da ideia

Mãos trémulas

Sem saber o que fazer

Desse duplo encarnado

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Tenho o final

Brocado no sublime 

E na clavícula _____ 

um vão

Por onde passam

Todas as linhas

Todas as forças 

E todos os brancos monumentais

Um pano de boca

Um cão _______________

e todas as coisas,

Todas as Vagas 

Efémeras guinadas,

Um acidente _______ como  num carro,

Uma mudança de Rumo mas

não como num carro

Fui eu

Um grau de visibilidade

UM CANTO MORTO  três  vezes, 

um prego a fundo numa folha de papel,

____________ um souvenir..

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Gamelas ainda vazias do bulício 

O aro da boca dos Alguidares

 imóvel e espectante

as Facas para amolar

no vai e vem da mão do matador

Tudo lhe é – família – corpo e sinal da funesta hora 

a Unha do polegar faz o teste da lâmina

A cabeça do animal espera

A mão do homem

deseja as golfadas

A mulher apara o sangue com a cara

sorridente e

salpicada

O porco arado pelo chão

E os miúdos a encenar uma guerrilha

Desta vez com cacos de telhas e tigelas de fogo

Ao fim da via sacra

A pele do animal está aberta a todo o comprimento da barriga

Bofes pelo recto

Banhas a cair com gravidade

Cabeça intacta na travessa dos limões e das laranjas

Rins em segundo plano ao lado dos presuntos

E lombos separados das costelas

Machada na suã ______  Abundante

Cachola assada _______ liberta do sal 

Uma  malga de rosas estampadas 

Polvilhada de Pimenta

Abrigo de um ramo de amor da horta

A Mesa baixa apara as azeitonas,

o vinho tinto e a satisfação

Malhas do chinquilho 

Antes da frijoca do almoço 

Despede-se aDeus

E por fim 

as mantas de toucinho

afagam aquela tarde de matança 

Lusco fusco

Crianças aconchegadas com os panos dos alguidares das linguiças

Deita lento – ninguém acorda – porque o inverno virá 

A precisar de “soberbos mimos”. 

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A taberna

O tumulto das confidências e capelinhas

Escancarado o oratório – sempre pronto –

e a Ápia de Cícero – a cuidar de sim mesmo

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A legião das moscas

As bojudas alinhadas num chão de terra batida

Toalha de pano alvo debruçada no poço do quintal 

Cesto de vime enforcado na corda

 cheio de garrafas para gelar

e fingir o desgosto  das lágrimas adamadas  

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Uma digna sala de visitas:

dois salões

Mouriscos

Iluminados por clarabóias e azuleijos da fábrica de Santana

______________________Inauguração

Amêijoas variadas

Sopa alentejana

Linguado grelhado

Salmonetes na grelha

Filetes com molho de tártaro 

Linguado frito

Bife à inglesa

Lombos de dom Afonso Henriques

Tornedó americano 

Iscas galegas 

Costeletas à lionesa 

Queijos flamengo e da serra

Pudim flan

Vinhos brancos e tintos, portugueses e internacionais 

Tubaras  à sombra dos sobreiros

açoitadas com umas pedras de sal e assadas na brasa

Coça-se o poeta

Burguês  dos outeiros e das colinas com a mesma idade

Uma oliveira ilustre

E Uma farmácia 

O ideário republicano  dava-lhe nas costas a comichão 

necessária à feitura dos poemas

E a poetisa 

Irmã suror 

Intangível _________ o amor

“Sabia que cada corpo que fodia era cada coisa que não tinha”

Morreu em Lisboa

Numa pensão do Intente

E passou a ouvir baixinho

A saudade em gotas _______

 Rubra-Nevrose iluminada  por uma Lâmpada de argila 

Ecce homo

Aprendiz de Dionísio 

Misturou cinza na folia

bebeu vinagre no lugar do vinho

sem maceração de um novo pendor de cabeça

E mãos vazias

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Durmo a noite caída

porta aberta

luz escondida

estrelas postas 

obras de arte

Transfigurações que emprestam à noite 

as pontes ocultas 

e os nossos mortos

Cintilações

amparos da sombra que caminha  ao nosso lado

Dela

ganho o sono atirado a mim

e plena do chão

apuro as forças

apanho o  indomável

causo-lhe a surpresa

espremo-lhe o suor 

a testa

sou pendor e vigilância

sob a luz escondida

sou eu 

o interruptor

Durmo a noite caída

porta aberta

à luz prometida

estou

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Eis o Veado  

anunciado na praia

Em maré vazia

Descoberto de jacintos

e luzidio de unguentos

não é um veado

Não 

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Armo a fisga

De aparo em aparos faço pontaria  

imagino a forca

E a força a desbastar uma ferida 

Amolo o caso e a faca

Preparo a degola

Amuro o caso e a faca

Amparo a degola 

Amorno o caso e a faca

e no final passo tudo com papel absorvente

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…